O Naturismo é uma forma de viver em harmonia com a Natureza caracterizada pela prática da nudez colectiva, com o propósito de favorecer a auto-estima, o respeito pelos outros e pelo meio ambiente.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Plantas: Rícino


Fiquei deveras surpreendido ao receber uma chamada de uma senhora, que não conhecia, para efetuar uma digressão pedestre pelos arredores de Porto Salvo (Oeiras), a fim de identificar plantas silvestres espontâneas. Protestei, dizendo que não era biólogo, nem sequer botânico, apenas um simples curioso, mas aprontei-me a aceder ao convite, na mira de dilatar conhecimentos. Combinámos a iniciativa para os finais de abril, considerada a época mais oportuna para apreciar a vegetação ainda viçosa e lá fui. Com a Carmo e a Jesus, duas amigas, amantes da natureza, percorremos terrenos incultos numa zona outrora considerada ideal para a produção de trigo. Na realidade, à vista de solos grossos e acastanhados com pH elevado e consistência um tanto argilosa, fiquei convencido da veracidade de tal asserção. Aquelas terras deveriam ser ótimas para uma cultura tão exigente como a do trigo. Hoje, lamentavelmente, fazem parte da bolsa de terrenos expectantes destinados à construção de mais moradias. Enquanto isso, constituem uma espécie de baldios onde as ervas brotam e crescem como entendem, formando conjuntos sociológicos vegetais dignos de atenção e estudo.
Ora, de entre a diversificada flora de uma encosta, sobressaiam várias moitas de rícino, curiosa espécie que escolhi para protagonizar a presente croniqueta. Surpresos, observámos que a uma distância de vários metros dos respetivos arbustos, já se via, em apreciável quantidade, as lustrosas plântulas de rícino, acabadas de nascer. Daí, logo se colheu um novo ensinamento - quando os frutos secam, abre-se a sua cobertura espinhosa e as sementes são projetadas a distâncias que podem superar os dez metros. Esta estratégia de propagação não é única. Lembremo-nos dos pepinos de são-gregório, também existentes no espaço visitado, cuja estratégica é idêntica (Ver o livro “As Plantas, Nossas Irmãs” que publiquei em 2010).
O Ricinus communis L é um arbusto monóico de caule oco e lenhoso, da família das euforbiáceas, oriundo das terras quentes da África tropical. O nome Ricinus significa carraça, em latim, devido ao aspeto das respetivas sementes. Trata-se de uma herbácea anual, ou vivaz (dependendo das regiões e das condições climatéricas). Atinge uma altura de 2 a 5 metros, mas em Africa suplanta essa dimensão. As folhas são alternas, palmatilobadas com os bordos dentados, cuja cor vai do verde brilhante ao avermelhado. As flores dispõem-se em grandes inflorescências, situando-se as flores femininas na parte superior da panícula, enquanto as flores masculinas ficam mais abaixo. Os frutos são globulosos e quase sempre cobertos com carapaças espinhosas que fazem lembrar os ouriços dos castanheiros. Cada fruto costuma ter três sementes de superfície lisa, brilhante e marmoreada que são projetadas a considerável distância quando se encontram secas, como já se referiu.
Há quem utilize o rícino como planta ornamental, aproveitando o contraste colorido da sua folhagem, mas o maior valor está nas sementes constituídas em, pelo menos, 50% de óleo rico em triglicéridos. Diga-se, desde já, que, como acontece com praticamente todas as eufórbias, o rícino é uma planta tóxica. Muito cuidado, portanto!
O óleo de rícino extraído das sementes prensadas é matéria-prima de cosméticos, vernizes, tintas e lubrificantes, podendo, inclusive ser utilizado como combustível (biodiesel). Contudo, a fama desta planta como espécie medicinal vem dos tempos do antigo Egipto. Trata-se de um potente purgante capaz de resolver rapidamente os problemas de obstipação intestinal. Com efeito, basta tomar uma colher de sopa de óleo, de desagradável sabor, diga-se de passagem, e após duas horas, inicia-se a diarreia. Dado que, por vezes, também provoca irritação nos intestinos mais débeis, este tratamento deve ter acompanhamento médico.
A ricina é a substância mais tóxica contida nas sementes, bem como em toda a planta, mas em menor percentagem. Diz-se que cerca de 12 gramas de sementes de rícino, se ingeridas, são suficientes para causar a morte de uma pessoa. No entanto, esta proteína, considerada uma das mais potentes toxinas biológicas que se conhece, é destruída logo que se aquece o óleo.
Para além do efeito laxante e purgativo, utiliza-se também o referido óleo para tratar parasitoses, eliminar a seborreia do couro cabeludo, enrijar as unhas quebradiças e prevenir o aparecimento de calos.
As folhas frescas do rícino, bem esmagadas, formam cataplasmas emolientes e cicatrizantes que são eficazes para o tratamento de eczemas, herpes, erupções, queimaduras e calvícies.
Recordo ainda uma aplicação útil que me era dada presenciar em criança: utilizavam-se os resíduos das sementes para complementar a adubação da cama de terra onde se dispunha o cebolo (na minha região prefere-se dizer dispor o cebolo, em vez de plantar o cebolo). Essa prática agrícola era corrente na região de Alcochete, pelo menos até à década de sessenta.
Há quem aluda que a plantação do rícino pode ser um precioso auxiliar na agricultura biológica por ser repulsivo contra ratos e toupeiras. Por outro lado, dizem alguns especialistas, que o intercalar plantas de rícino entre os pés das batateiras, tem o condão de afugentar as doríforas (insetos coleópteros que atacam os batatais). Devo dizer, no entanto, que jamais deparei com tal processo e, não duvidando da sua eficácia, receio bem que ele acabe por prejudicar as culturas devido ao espaço avantajado que o rícino iria ocupar.

Cortesia de Miguel Boieiro